OPINIÃO| O BLOCO DA ALIENAÇÃO: ENQUANTO O POVO SAMBA, A BOIADA PASSA NO CAMAROTE DO PODER

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O Brasil atravessa mais um Carnaval, a festa da carne, do suor e do esquecimento programado. Enquanto milhões de brasileiros se espremem nos blocos, ruas e ladeiras, entregues à legítima alegria da folia, da bebedeira e do encontro, nos bastidores climatizados de Brasília e nos palácios estaduais, o apetite da classe política segue avassalador. O roteiro é conhecido e amargo: a folia do povo serve de cortina de fumaça para a mordomia dos poderosos.

A cena atual evoca memórias sombrias de um passado recente. Quem não se recorda do folclórico e nefasto ministro que, enquanto o país contava seus mortos aos milhares na pandemia, sugeria “passar a boiada” aproveitando que a atenção da mídia e da sociedade estava voltada para a tragédia? O espírito daquela frase continua vivo. Hoje, a “boiada” não corre entre leitos de hospital, mas entre os confetes e serpentinas da indiferença política.

O Banquete dos Comensais

Enquanto o cidadão comum gasta o que não tem para celebrar o seu momento de respiro, os comensais da elite política deitam e rolam. Nos bastidores, as engrenagens da “propina propinodêutica” não param. O dinheiro, que deveria irrigar a saúde mental de cidades doentes ou garantir a segurança de ruas tomadas pelo medo, é contado em gabinetes longe da poeira dos blocos.

É o contraste obsceno de um país dividido:

  • Na rua: O povo na folia, buscando um alento para a vida sofrida.
  • No gabinete: O político na mordomia, articulando projetos que só beneficiam os donos do poder.

A Ressaca da Quarta-Feira de Cinzas

O perigo da alienação é que ela tem data de validade. O Carnaval, por definição, é efêmero. Contudo, as canetadas dadas durante o feriado, as reformas silenciosas e os acordos feitos à sombra da festa são permanentes. Quando a Quarta-Feira de Cinzas chegar, a dor de cabeça não será apenas fruto dos excessos da folia; será o despertar para uma realidade ainda mais dura.

Não haverá remédio que cure o processo de alienação quando o povo perceber que, enquanto pulava, teve seus direitos subtraídos e o futuro hipotecado. A elite política brasileira aprendeu que o barulho da bateria é o melhor silenciador para as suas manobras.

Ao fim da festa, o que resta é o pó. Para os políticos, o lucro do poder mantido. Para o povo, a conta de uma festa que ele mesmo pagou, mas cujos dividendos foram colhidos por quem nunca saiu do ar-condicionado. É preciso que, entre um bloco e outro, a consciência não se perca no meio da multidão.

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